Um
das vantagens das eleições consiste no acesso legal às informações patrimoniais
dos candidatos. Uma simples visita à pagina do Tribunal Regional Eleitoral na
internet permite ao eleitor saber quanto seu candidato arrecadou nos anos de
trabalho ou, se candidato à reeleição, quanto o patrimônio aumentou ou diminuiu
à frente do serviço público. O site forneceu-me dados sobre Elizabete de
Carvalho, prefeita de Maracaí, candidata à reeleição, cujo patrimônio, entre
2009 – ano em que assumiu a prefeitura – e os dias atuais gira em torno de R$
80.000,00 (oitenta mil reais). Em outras situações, pouco me importaria o
destino das economias de qualquer pessoa, mas Elizabete de Carvalho é caso
especial.
Caso
especial não por ela ser prefeita – milhares de homens e mulheres ocupam o
cargo máximo dos executivos municipais – mas por responder a duas Ações Civis Públicas
de Improbidade Administrativa que totalizam mais ou menos R$ 400.000,00
(quatrocentos mil reais) que devem ser devolvidos aos cofres públicos. Se a
memória não me falha, o Ministério Público do Estado de São Paulo não apenas
solicitou a devolução do dinheiro, mas também pediu seu afastamento do cargo. A
Justiça bloqueou os bens da prefeita, de seu secretário e de um empresário,
entretanto, optou por mantê-la nas funções públicas.
Em
simples cálculo, Elizabete de Carvalho – sem incluir salários de parentes que
ocupam cargos sem concurso público – leva mais ou menos R$ 10.000,00 por mês.
Se pensarmos nos quarenta e oito meses de governo, são R$ 480.000,00 em quatro
anos. Ela já disporia de patrimônio suficiente para devolver o dinheiro que,
segundo o Ministério Público, usou de maneira ilegal. Preocupou-me o fato de
alguém ganhar R$ 480.000,00 em quatro anos e possuir apenas R$ 80.000,00. Com o
tempo, dúvidas surgiram: onde realmente a prefeita de Maracaí colocou esse
dinheiro? Por que, na declaração de bens, disse que tinha apenas R$ 80.000,00?
Obviamente
não consegui encontrar respostas, mas outras perguntas me surgiram assim como
surgiriam a qualquer um que sabe do envolvimento da prefeita em práticas
consideradas ilegais pelo Ministério Público. Entre as tantas perguntas – e,
vale ressaltar, perguntas não são nem afirmações, nem acusações – destaco: Será
que a prefeita de Maracaí planejou os prejuízos aos cofres públicos e, por essa
razão, tirou todo o dinheiro e todos os bens de seu nome para fugir da Justiça?
Se a prefeita só tem R$ 80.000,00 como patrimônio, a quem pertence a casa em
que ela mora? Ela mora de graça, paga aluguel? Pertence aos filhos? Se pertence
aos filhos, de onde saiu o dinheiro para comprá-la? Além disso, a quem pertence
a caminhonete – por sinal, bastante cara – na qual a prefeita desfila sua
municipalidade? Quantas pessoas condenadas por improbidade administrativa,
saque aos cofres públicos, desvio de dinheiro, enriquecimento ilícito integram
sua equipe de governo?
Essas
dúvidas – portanto, não são nem afirmações, nem acusações – são bastante
pertinentes: o Ministério Público, os Tribunais de Contas do Estado e da União
e a Controladoria Geral da União poderão rastrear a montanha de dinheiro que
deveria ser retirada do patrimônio da prefeita para ressarcir os cofres
públicos. Mas, como bloquear bens e patrimônio se a prefeita não tem nada? A
resposta é simples. Basta os Tribunais de Contas entrarem em contato com a
Receita Federal e a Receita Estadual. Uma pesquisa rápida poderá mostrar se os
filhos, os genros, os netos, as noras, os parentes ou correligionários tiveram
aumento expressivo no patrimônio desde que ela assumiu a prefeitura.
Enquanto
tem gente morando de favor ou de aluguel, o dinheiro que a prefeita terá de
devolver poderia ter construído dez casas populares. Enquanto tem gente
sofrendo com graves problemas de saúde, falta de remédio, poucos médicos e
puxa-sacos de sobra, haveria quem, da noite pro dia, tivesse comprado três
carros, cinco terrenos e duas casas? Por que nem a prefeita nem seu
vice-prefeito aceitaram o convite da Igreja para conversar com o povo?
O
povo talvez não se importe com o dinheiro público. A ADPCIM se preocupa. Os
primeiros passos dos próximos prefeitos de Maracaí: contratar auditorias a fim
de verificar todo o dinheiro gasto pela prefeita. Cada caneta, cada litro de
gasolina, cada quilo de carne ou uniforme, cada remédio ou verba repassados ao
hospital e ao SASSOM precisam ser fiscalizados.
O
Tribunal de Contas do Estado de São Paulo desmascarou, por meio de relatório
oficial, o discurso dos vereadores Maurício Sergio Justiniano (PSIU) e
Francisco Cassachia Neto sobre a legalidade das consultorias contratadas pela
prefeitura: durante a gestão de Elizabete de Carvalho, as consultorias levaram
mais de R$ 1.000.000,00 (um milhão de reais). Uma dessas consultorias reuniu o
povo no Centro Cultural para tratar das casas populares. Cadê as casas?
Na
próxima semana, vamos falar sobre como o Tribunal de Contas desmantelou o
discurso de Psiu e Cassachia e explicar por que, até agora, não se construiu
nenhuma casa popular em Maracaí.
Vicentônio
Regis do Nascimento Silva (www.adpcim.blogspot.com)
é presidente da Associação de Defesa e Proteção do Patrimônio Público e dos
Direitos do Cidadão de Maracaí (ADPCIM).
*Publicado
originalmente no jornal O Regional
(Tarumã – SP) de 8 de setembro de 2012.